“Bebê Mounjaro”: caneta emagrecedora pode driblar efeito do anticoncepcional

Com vendas bilionárias e crescimento recorde no Nordeste, uso das canetas exige planejamento contraceptivo, alerta especialista

Ela começou a usar a caneta para emagrecer. Semanas depois, a menstruação voltou a ser regular. Pouco tempo depois, veio o positivo no teste de gravidez, sem planejamento algum. A cena, cada vez mais comum nos consultórios, ganhou até apelido nas redes sociais: “bebê Mounjaro”. E tem explicação científica. “Essas medicações podem interferir em muito mais do que o número da balança. Podem profundamente a saúde hormonal, metabólica e reprodutiva da mulher”, alerta o médico ginecologista e obstetra Guilherme Carvalho, especialista em Reprodução Humana pelo Hospital Sírio-Libanês.

O alerta chega em um momento de uso massivo. Entre maio de 2025 e maio de 2026, as canetas somaram R$13,3 bilhões em vendas nas farmácias brasileiras, segundo a Close-Up International Brasil. Só o Mounjaro saltou de cerca de 208 mil para mais de 4,5 milhões de unidades vendidas em um ano, alta próxima de 2.070%. Na internet, o ritmo é parecido. Levantamento da Serasa Experian mostra que os pedidos online cresceram 149,3% no primeiro semestre de 2026, passando de 1,36 milhão de solicitações, e as mulheres responderam por 44,2% desses pedidos. O dado que mais chama atenção para a Paraíba: o Nordeste teve o maior crescimento percentual do país, com alta de 195%, e também liderou em tentativas de fraude.

Quando a ovulação volta sem avisar

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a síndrome dos ovários policísticos (SOP) atinge entre 10% e 13% das mulheres em idade reprodutiva, e muitas delas não têm diagnóstico. Na SOP, a resistência à insulina faz o organismo produzir insulina em excesso, o que estimula os ovários a fabricar mais androgênios. O resultado: acne, excesso de pelos, dificuldade para emagrecer, ciclos irregulares e falta de ovulação.

“Quando a semaglutida ou a tirzepatida reduz o peso, a gordura visceral e a resistência à insulina, nós podemos interromper parte desse ciclo. Algumas mulheres voltam a menstruar regularmente e recuperam a ovulação e aqui está o alerta que poucas recebem: a gravidez pode acontecer antes mesmo de a paciente perceber que sua fertilidade melhorou. Há um segundo risco, ainda pouco conhecido. A tirzepatida retarda de forma acentuada o esvaziamento do estômago, o que pode comprometer a absorção dos hormônios da pílula. Por isso, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) recomenda que usuárias de anticoncepcional oral associem um método de barreira por pelo menos quatro semanas após o início do tratamento e após cada aumento de dose ou troquem de método. Métodos como o adesivo, que liberam hormônios pela pele, não sofrem essa interferência”, explica Dr. Guilherme.

As canetas também não devem ser usadas na gestação. A orientação é suspender a semaglutida pelo menos dois meses e a tirzepatida pelo menos um mês antes de engravidar. “É preciso definir contracepção, tempo de tratamento e o momento correto da suspensão antes de tentar engravidar”, reforça Guilherme Carvalho.

Benefício real, mas com limites

Na endometriose, o controle da obesidade e da inflamação metabólica pode contribuir para o tratamento, mas é preciso cautela. “Ainda não podemos afirmar que as canetas tratam as lesões de endometriose. Elas não substituem o tratamento específico. O mesmo vale para a fertilidade. Elas não rejuvenescem os óvulos, não aumentam a reserva ovariana e não corrigem todas as causas de infertilidade,” afirma o especialista.

O acompanhamento também precisa incluir proteção da massa muscular, alimentação adequada, ajuste gradual da dose e monitoramento dos efeitos colaterais. “Caneta emagrecedora não é milagre e não é vilã. É uma ferramenta poderosa. Mas, na saúde da mulher, ela precisa fazer parte de um planejamento que considere seus hormônios, seus ovários, sua fertilidade, seu corpo como um todo e o seu desejo de ser mãe”, conclui.

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