A fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos, após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial, frustrou os planos do PL de transformá-lo no principal articulador da oposição e acelerou as movimentações de lideranças da direita em busca de maior protagonismo. Enquanto aliados de Tarcísio de Freitas já fazem cálculos para a disputa presidencial de 2030, Michelle Bolsonaro negocia seu retorno ao comando do PL Mulher, e Rogério Marinho e Tereza Cristina se articulam pela presidência do Senado.
No entorno de Tarcísio, a avaliação é que a ausência de Flávio favorece a consolidação do governador de São Paulo como uma das principais alternativas da direita para a próxima eleição presidencial. Embora tenha participado ativamente da campanha do senador, Tarcísio pode ampliar seu protagonismo nacional sem precisar confrontar diretamente o bolsonarismo, segundo integrantes de seu grupo político.
Na terça-feira, em meio às primeiras notícias sobre a fuga, o governador divulgou um vídeo em que reconheceu o resultado das urnas, agradeceu a Flávio pela campanha e defendeu a construção de um projeto político com redução de gastos públicos e impostos. Sem comentar a saída do aliado, pregou a união da direita e uma atuação mais incisiva da oposição a Lula.
— A direita brasileira recebeu das urnas uma responsabilidade, recebeu força no Congresso e nos estados. Agora é hora de unidade, de uma oposição vigilante, que cobre responsabilidade fiscal, que proponha aquilo que melhora a vida das pessoas e que fiscalize de perto quem governa pelos próximos quatro anos — afirmou.
Dentro do PL, Michelle Bolsonaro também busca recuperar espaço. A ex-primeira-dama reuniu-se na terça-feira com o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, e, segundo aliados, deve retornar ao comando do PL Mulher. A movimentação ocorre após uma campanha presidencial em que manteve distância pública do enteado e concentrou esforços na reeleição de Celina Leão (PP) ao governo do Distrito Federal e em sua própria candidatura ao Senado.
Eleita senadora, Michelle terá a partir de 2027 um mandato para ampliar sua influência política, que já alcança setores conservadores e evangélicos. O eventual retorno ao PL Mulher permitiria combinar essa atuação parlamentar com o comando de uma estrutura partidária voltada à mobilização feminina e à formação de candidaturas, fortalecendo sua posição nas decisões da legenda.
No Congresso, a saída de Flávio também alterou os cálculos para a eleição da presidência do Senado. Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial do senador, reuniu-se na terça-feira com Valdemar em meio às negociações pelo comando da Casa. A disputa está entre as prioridades do partido, que elegeu a maior bancada do Senado e pretende ampliar sua influência sobre a próxima legislatura.
Até a derrota eleitoral, a cúpula do PL trabalhava com a perspectiva de que Flávio assumiria a articulação da oposição no Congresso. Na segunda-feira, o próprio senador havia prometido reunir deputados e senadores eleitos para organizar a atuação contra o governo Lula. A saída do país menos de 24 horas depois surpreendeu integrantes da campanha e comprometeu essa estratégia.
Em entrevista coletiva na terça-feira, Marinho afirmou que havia conversado com Flávio sobre a necessidade de assumir a liderança da oposição e que não fora informado da decisão de deixar o Brasil.
— Nós estamos surpresos, porque ontem nós conversamos sobre a necessidade de que Flávio, com os 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da oposição, que é importante — disse.
A ausência do senador também pode dificultar as pretensões de Marinho. Na avaliação de aliados do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a saída de Flávio enfraquece a capacidade de articulação do PL e tende a ampliar o isolamento da legenda nas negociações com partidos do Centrão, decisivos para a escolha do próximo presidente da Casa.
Além da resistência de Alcolumbre, Marinho terá de lidar com a movimentação de Tereza Cristina (PP-MS), que também pretende disputar a presidência do Senado. Na terça-feira, a senadora divulgou um vídeo em reação ao anúncio de apoio da federação União Brasil-PP à permanência de Alcolumbre no cargo.
— Observamos que os 54 novos senadores eleitos e reeleitos sequer foram diplomados e têm todo o direito de expressar, no momento apropriado, sua vontade e, naturalmente, a dos eleitores que representam — afirmou Tereza.
A parlamentar, que já manifestou o desejo de se tornar a primeira mulher a presidir o Senado, também fez um gesto às novas integrantes da Casa.
— Como líder veterana, estarei aqui para receber meus colegas, especialmente as 12 novas integrantes da bancada feminina. Quero ouvir todos, como sempre fiz, pois o diálogo no Parlamento é tudo.
Marinho também questionou o alcance do apoio anunciado pela federação a Alcolumbre. Indagado sobre a posição de União Brasil e PP, afirmou:
— Eu acho que a posição dele não se reflete na bancada.
O senador confirmou ainda que a eleição para o comando das duas Casas do Congresso estava entre os assuntos discutidos pelo partido. A definição exigirá negociações com outras legendas, já que o PL, apesar do tamanho de suas bancadas, não reúne sozinho os votos necessários para eleger os presidentes da Câmara e do Senado.
A reorganização ocorre após Flávio anunciar, nesta quarta-feira, que pretende comandar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos. Em carta de teor golpista, o senador se declarou o “verdadeiro presidente eleito” do Brasil, alegou fraude eleitoral sem apresentar provas e prometeu divulgar uma estratégia de mobilização de seus apoiadores nos próximos dias. A tentativa de preservar sua liderança política à distância, porém, terá de conviver com as articulações de aliados que já se movimentam para ocupar espaços de poder na direita após sua derrota nas urnas.
Com O Globo

