Quatro em cada 10 brasileiros não conseguem citar uma mulher no poder; na Paraíba, violência política desafia quem ocupa esses espaços

Quatro em cada dez brasileiros não conseguem citar o nome de uma mulher que ocupe uma posição de poder. O dado da pesquisa ‘Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras’, evidencia a dificuldade da sociedade em reconhecer a liderança feminina, mesmo quando ela já ocupa espaços de decisão. O levantamento mostra que 40% dos entrevistados não conseguem lembrar o nome de uma mulher em posição de liderança. Entre as próprias mulheres, esse percentual sobe para 45%. Ao mesmo tempo, 96% dos brasileiros sabem explicar o que significa exercer poder, indicando que a invisibilidade não está no conceito, mas em quem ocupa esse lugar.
Os números mostram que o desafio das mulheres não termina quando elas conquistam um cargo de liderança. Em muitos casos, começa justamente ali. O reconhecimento social continua desigual e, frequentemente, a presença feminina em espaços historicamente masculinos ainda desperta resistência. Muitas ainda se deparam com a violência política de gênero, contestando capacidade e tentando dificultar o ingresso e posições de poder.
Outro dado chama atenção é que quase três em cada dez mulheres afirmam que duvidar da própria capacidade é o principal fator que provoca sensação de impotência. Uma em cada três diz que precisou mudar o tom de voz para ser levada a sério em ambientes profissionais ou de liderança. O levantamento também aponta diferenças raciais: 39% das mulheres negras afirmam esconder partes do corpo para evitar julgamentos, percentual superior ao registrado entre mulheres brancas, de 28%.
Além da falta de reconhecimento, mulheres que ocupam espaços públicos enfrentam outro desafio: a violência política de gênero. Prevista na Lei nº 14.192/2021, essa modalidade de violência engloba ações destinadas a impedir, dificultar ou restringir os direitos políticos das mulheres por meio de humilhações, intimidações, ameaças, constrangimentos ou discriminações baseadas no gênero.
Na Paraíba, mulheres que construíram trajetórias na vida pública afirmam que, além da disputa eleitoral, enfrentam diariamente o desafio de validar sua própria autoridade. A deputada estadual Camila Toscano, atualmente em seu terceiro mandato, tornou-se símbolo desse debate ao protagonizar o primeiro caso no estado com condenação por violência política de gênero. O episódio marcou um precedente importante no combate às agressões direcionadas às mulheres que exercem mandato eletivo. “Quando uma mulher é atacada por exercer seu mandato, toda a democracia perde”, afirma.
Outro caso é o da ex-secretária de Desenvolvimento Social de Sapé e dirigente estadual do PDT, Denise Ribeiro, atualmente pré-candidata à Assembleia Legislativa. Ataques pessoais, perseguições e campanhas de desinformação passaram a fazer parte da rotina desde que colocou seu nome novamente à disposição do eleitorado. Denise vem sendo alvo de informações falsas sobre uma suposta desistência da candidatura, além da circulação de pesquisa eleitoral que simulavam um cenário sem sua participação na disputa. “Não é apenas um ataque à candidatura, é uma tentativa de desestimular mulheres a ocuparem esses espaços”, diz.
A prefeita de Guarabira, Léa Toscano, também enfrenta ataques que ultrapassam o debate político. Primeira mulher eleita prefeita do município na década 1990 e ex-deputada estadual, ela relata ser alvo frequente de violência política de gênero associada ao etarismo, quando a idade passa a ser utilizada como instrumento de desqualificação pública. “A experiência nunca deveria ser usada como motivo para diminuir uma mulher”, ressalta.
A pré-candidata a deputada federal, Janny Milanês, vice-presidente licenciada da OAB-PB, também descreve situações em que sua autoridade é colocada em dúvida. Primeira mulher a presidir a Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil na Paraíba e responsável pelo maior desagravo público da história da instituição no estado, ela afirma que, mesmo ocupando o cargo máximo nas atividades, frequentemente as pessoas direcionavam perguntas aos homens que a acompanhavam, presumindo que eles fossem os responsáveis pelas decisões. “O cargo era meu, mas muitas vezes insistiam em procurar uma autoridade masculina”, relata.
A ex-vereadora de Cuité por dois mandatos, ex-deputada estadual e ex-secretária de Estado Rafaela Camaraense, hoje cotada para compor como vice a chapa majoritária encabeçada pelo atual governador da Paraíba, Lucas Ribeiro, afirma que mulheres precisam demonstrar competência continuamente para conquistar o mesmo reconhecimento concedido aos homens. Ao ser cotada como vice, as críticas não se concentram em sua trajetória ou capacidade de gestão, mas em questionamentos como: ‘não tem votos’, ‘não tem liderança’, ‘não agrega à chapa’ ou ‘estão impondo seu nome’. Quase sempre, a tentativa é associar sua ascensão à influência de algum homem. “Ainda precisamos provar nossa capacidade muito mais vezes do que eles”, conclui.
