Na ONU, Lula cita ‘ingerência externa’ e diz que ‘Brasil não cabe no quintal de ninguém’ 

Em discurso de abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira, 22, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou o princípio de não interferência em assuntos internos de outros países, alertando que “voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, às vésperas do pleito no Brasil.

Segundo Lula, o Brasil “não cabe no quintal de ninguém” e “a democracia está novamente em xeque”.

Ao longo do discurso, Lula defendeu que o Brasil não pretende, sob essa ótica, “terceirizar a responsabilidade” de proteger suas próprias fronteiras, sobretudo contra o crime organizado. A fala é uma menção direta à decisão dos Estados Unidos de classificar as facções PCC e CV como grupos terroristas, um ato classificado pelo governo brasileiro como um “desaforo”.

“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos”, declarou.

Segundo o presidente, “não permitiremos que inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano”. 

Ao longo da fala, o presidente brasileiro afirmou que o povo da Venezuela deve definir seu próprio destino, em um recado direto à intervenção dos Estados Unidos, que depôs o presidente Nicolás Maduro, hoje preso em Nova York, e que acaba de assinar um acordo que prevê exploração de petróleo venezuelano.

“A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos. O povo venezuelano merece definir o próprio destino. A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições. A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional. Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais”, disse. 

Durante seu discurso, Lula citou ainda o genocídio cometido por Israel, lamentando que “gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo (de Benjamin) Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preto do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”, criticou.

Após a fala do presidente brasileiro, será a vez de Donald Trump, como presidente do país anfitrião. Embora não exista uma reunião bilateral programada entre os dois, a agenda pode proporcionar um contato informal semelhante ao ocorrido no ano passado, quando os líderes trocaram algumas palavras nos bastidores antes de seus discursos.

As falas de Lula em torno do multilateralismo seguem críticas diretas a Trump. Na segunda-feira, em entrevista à emissora CNN, o brasileiro disse não concordar com o modo como o republicano Trump governa os Estados Unidos nem como ele tenta interferir em outros países.

“Ele foi eleito para ser o presidente norte-americano, tem o direito de governar. Mas não tem o direito de governar outros países”, declarou Lula no programa da jornalista Christiane Amanpour.

O presidente voltou a dizer que considera a maneira de governar de Trump semelhante à de um imperador. “Ele tem um jeito de governar, ‘eu sou o mais forte, o mais rico, eu posso fazer tudo e os outros têm que obedecer’. Eu não concordo com isso”, falou.

Os dois chegaram a conversar por telefone por cerca de uma hora em agosto. Na ocasião, o Planalto afirmou que Lula enfatizou, diante da recente imposição de tarifas americanas sobre o Brasil, que “as alegações que embasaram a medida (desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos com trabalho forçado) são infundadas”.

Ao longo da conversa, Lula também reiterou o interesse brasileiro em cooperação no combate ao crime organizado, argumentando que “grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas”.

Antes, Lula já havia dito que achou um “desaforo” e um “rompante” as decisões dos Estados Unidos de classificar as facções PCC e CV como grupos terroristas.

Os dois presidentes trocaram, ainda, “impressões sobre os principais conflitos globais” e concordaram “sobre a urgência de encontrar uma solução negociada para o conflito entre Rússia e Ucrânia, que já se estende por quase cinco anos”.

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